O último suspiro do caranguejo

Postado em - 10 de Janeiro de 2018 - 12:47 - 1 Comentário

 

O último suspiro do caranguejo

 

 

O ÚLTIMO SUSPIRO DO CARANGUEJO

 

Por Carlos Braz

 

 

Em um domingo de sol radiante, volto à Laranjeiras, minha terra natal, de onde saí há quatro décadas atrás em busca de um diploma de doutor, que proporcionasse dias melhores aos meus descendentes. Filho e neto de pescadores, a dura lida no canavial ou a pesca em um rio um cada vez mais poluído por resíduos industriais, não me interessavam.

E assim ganhei o mundo, enfrentando as adversidades surgidas no caminho com coragem, persistência e destemor. Alcancei meus objetivos, e agora volto ao meu lugar, à procura de paz interior e calmaria. Morar em Aracaju, próximo ao mar, rever o berço da minha infância e degustar sabores esquecidos pelo paladar, faziam parte do meu projeto imediato.

O percurso da capital ao berço da cultura sergipana enchia-me de curiosidade. Logo o verde dos canaviais abarcou os meus olhos e o cheiro de melaço adentrou-me pelas narinas, anunciando que estava próximo ao meu destino. As  lembranças eram inevitáveis, e chegaram aos poucos, a medida em que as procurava nos mais profundos escaninhos da minha memória.

Meu encontro com o Rio Cotinguiba enfim aconteceu, depois de tantos anos em terras que para se avistar o mar era necessário atravessar montanhas e intermináveis filas de automóveis repletos de crianças impacientes e adultos mal-humorados.

No leito destas águas, agora escuras e fétidas, eu passei os melhores anos da minha vida. Na margem esquerda do rio, meu avô construiu com as próprias mãos uma casinha de sapé, que servia de abrigo nas noites de pescaria. Anos depois, eu e meu pai nela esperávamos pelas marés vazantes, que nos permitiam adentrar ao mangue em busca de caranguejos e outros bichos que enchiam nossos jererés, e viravam prisioneiros do meu castelo de lama salobra.

Tínhamos uma pequena embarcação, batizada por minha mãe como “Rainha do Congo”, equipada com velas que impulsionadas pelo vento nos permitia aventuras inesquecíveis, a desafiar dragões do mar sem o menor arrepio, ao lado dos valorosos grumetes, Sergio Tampinha e Acácia. À frente, meu pai, negro esbelto e conhecedor de todos os mistérios das profundezas do rio e do mar.

Em um ímpeto, que aos poucos tornou-se incontrolável, sigo em direção ás águas onde agora flutuam centenas de garrafas pets, emolduradas por toda espécie de lixo doméstico, desde vasos sanitários a restos de mobília. Algumas poucas garças atoladas na lama acentuam ainda mais o desalento e abandono.

Queria navegar mais uma vez , mesmo com a certeza de não ouvir a brisa suave atravessando redes e tarrafas, que quando lançadas, sempre voltavam repletas de peixes e camarões, que transformados em deliciosas moquecas eram degustados por toda a vizinhança.

Um jovem pescador que recolhia seus instrumentos de trabalho, se dispôs a atender meu desejo, e lá fomos nós, rio acima. Eu, de início mudo e com um olhar melancólico, diante da degradação ambiental em derredor, aos poucos fui fazendo perguntas, que ele respondia com uma voz arrastada, tão peculiar àquela gente.

 Passamos pelo velho trapiche, agora polo do Universidade Federal, pela velha ponte centenária ainda de pé, pelos sítios com suas bananeiras, barrancos com restos de construção, esgotos a desaguar direto no estuário, e em alguns pontos, crianças e animais em um banho coletivo, tudo feio e triste.

Fechei os olhos, a viajei no tempo. Sinto a água a correr pelo meu corpo, que cortava as marolas em braçadas precisas. Ouço os gritos de Cacinha, incentivando-me a mergulhar mais fundo, sumir e subir de repente, bem pertinho dela, o coração batendo forte e o folego voltando aos poucos, ganhando então seus braços finos em torno do meu pescoço, seus seios de menina moça espremidos em minhas costas nuas, o amor nascendo para sempre, abençoado por uma natureza viva e esplendorosa.

Lembro as procissões no seu leito, as taieiras, Mãe Umbelina, o respeito a Alexandre, rezador que nos livrava de todos os males, meu rosto pintado de cabaú e a toca vermelha dos lambe sujos, as frutas em profusão em qualquer das estações, o mugir dos bois puxando sua carga. A dança de São Gonçalo, eu correndo descalço atrás dos negros vestidos de saia…….

O devaneio continua até o local onde outrora existiu nosso barraco. A vegetação nativa tomou conta de tudo, mas o recuo da maré nos permitiu descer e corajosamente enviar os pés na lama, O medo de cortar os pés em cacos de vidro fez com que o barqueiro continuasse a bordo. Segui adiante, e em terra firme permaneci por algum tempo, farejando o ar qual bicho do mato a procura de caça.

Eis que surge  a minha meninice, em forma de um caranguejo trôpego sai da sua toca em busca de um sopro de vida. Suas garras frouxas não assustam ninguém. O seu casco de vidro parece se quebrar a qualquer toque. O bichinho estanca indeciso aos meus pés, como a pedir ajuda a um velho amigo..

Impossível não traze-lo, meio sem jeito, ás minhas mãos tão alvas e sem calos. Sinto o seu cheiro , procuro a marca indelével que o identifica se é macho ou fêmea, olho nos seus olhos, leio sua almo e decifro o seu destino.Quase escuto seu último suspiro.

  Quando segue rumo ao fundo escuro do manguezal, afoga meu passado e enche meus olhos de lágrimas.

Viro as costas a este ermo lugar com a certeza de que nunca mais voltarei aqui.

Carlos Braz Carlos Braz – Carlos Braz é sergipano, natural de Aracaju. Tem 61 anos ,é Bacharel em Museologia, formado pela UFS, e acadêmico de Licenciatura em História também na UFS. É membro da Associação Sergipana de Imprensa (ASI), já publicou artigos e contos no semanário Cinform, e foi autor dos projetos expositivos " Cangaço: por dentro do emborná e na ponta do punhá" (Museu Histórico de Sergipe), "Folguedos de Sergipe: conhecer, valorizar e preservar" (Museu Histórico de Sergipe e Museu Afrobrasileiro de Sergipe), "Moedas e cédulas brasileiras: a história na palma da mão"(Museu Histórico de Sergipe)," Vida e obra de Luiz Antonio Barreto" (Palácio Museu Olímpio Campos), e mentor do projeto Afrodescendencia e cidadania.
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Para: O último suspiro do caranguejo

Um Comentário até agora.

  1. Isabel Rodrigues Cardoso de jesus disse:

    Ótimo texto , esse , sobre : o último suspiro do caranguejo , muito bem escrito , uma narração perfeita que me remete a minha infância, de quando cheguei em Aracaju e ainda alcancei os manguezais ainda quase que veio a de seus moradores e que me faziam pensar, como poderia , eu , uma moça simples , do interior , achar um bichinho tão feio que é, aparentemente , o Carangueijo , ser tão esperto , e enganar as pessoas na hora de pega-los, eu na mais pura adolescência, achava aquilo lindo .


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