O dia da consciência negra: o que comemorar ?

Postado em - 19 de novembro de 2018 - 18:12 - Sem Comentários

 

 

 

Nossa herança africana

O dia da consciência negra: o que comemorar?

 

Por Carlos Braz

 

 

O calendário marca o dia da consciência negra, estabelecido pela Lei nº10639 de 09/01/2003, alterada pela Lei 11.645/08, momento mais que oportuno para abordarmos temas que dizem respeito às relações intrínsecas entre o Brasil e a África, relações estas que formam um mosaico abrangente, com detalhes que muitas vezes passam despercebidos na contemporaneidade.

O dia 20 de novembro foi escolhido por ser a data da morte de Zumbi dos Palmares, líder do quilombo que representa para os afrodescendentes brasileiros o símbolo maior da revolta do negro ante a sua condição de escravo.

O maior quilombo da história imperial brasileira só foi destruído depois de um esforço de guerra despendido pelo imperador D. Pedro II, que resultou na morte de milhares de homens que queriam apenas a liberdade, só conseguida em 13 de maio de 1888, com o ato régio da Princesa Isabel, (filha do mesmo D, Pedro II), data comemorada por décadas como marco de um novo tempo para os “homens de cor” do Brasil.

A revolução cultural ocorrida a partir de meados da década de 60 alavancou a surgencia de movimentos de reconhecimento étnico e reinvindicação de identidades em todo o mundo .

No Brasil, os movimentos negros incluíram entre suas demandas, a efetivação de uma data que representasse o clamor emanado dos guetos, carentes de políticas públicas que diluíssem os efeitos perversos da “libertação” que colocou milhares de cidadãos livres no limbo da história, entregues à própria sorte, sem perspectivas alguma de um futuro promissor.

O dia da consciência negra em 2018 é um convite à reflexão sobre a realidade do afrodescendente no contexto sócio econômico nacional. Somos, segundo dados do IBGE 51% da população brasileira, no entanto, passados tantos anos desde a abolição, nosso status quo pouco se modificou.

A política de exclusão vigente desde o início do Brasil republicano ainda nos soterra, mesmo diante das políticas públicas de inserção incrementadas durante o  governo petista, e é disso que precisamos ter consciência.

 Parafraseando Caetano, a gente não quer só comida, a gente quer muito mais: queremos os nossos valores culturais respeitados; necessitamos de educação para pleitear os melhores cargos, saúde para enfrentarmos as jornadas diárias com vigor, e exigir os direitos garantidos constitucionalmente, entre eles a aplicação das leis que punem o racismo e a injúria racial.

A obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas, públicas e particulares, do ensino fundamental até o ensino médio, ainda é uma utopia.

O dia da consciência negra é oficializado como feriado em poucos municípios, o que demonstra a existência de um conservadorismo mal disfarçado, resíduos do longo período escravocrata e do mito da democracia racial que embalou a sociedade brasileira desde o lançamento do clássico Casa grande & senzala do sociólogo  pernambucano Gilberto Freyre.

Carlos Braz Carlos Braz – Carlos Braz é sergipano, natural de Aracaju. Tem 61 anos ,é Bacharel em Museologia, formado pela UFS, e acadêmico de Licenciatura em História também na UFS. É membro da Associação Sergipana de Imprensa (ASI), já publicou artigos e contos no semanário Cinform, e foi autor dos projetos expositivos " Cangaço: por dentro do emborná e na ponta do punhá" (Museu Histórico de Sergipe), "Folguedos de Sergipe: conhecer, valorizar e preservar" (Museu Histórico de Sergipe e Museu Afrobrasileiro de Sergipe), "Moedas e cédulas brasileiras: a história na palma da mão"(Museu Histórico de Sergipe)," Vida e obra de Luiz Antonio Barreto" (Palácio Museu Olímpio Campos), e mentor do projeto Afrodescendencia e cidadania.
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